Monday, July 18, 2005
pintar o escritório, pelo que me pavoneava despudoradamente com um ar algo híbrido de imigrante ilegal com americana paranóica em exercício nuclear em plena Guerra Fria (se bem que a máscara sempre me disfarçava o nariz);
assistir ao Campeonato Europa Divisão C de Basquetebol em Cadeiras de Rodas (a Grécia ficou em 3º lugar e Portugal alcançou um histórico 5º lugar) e acabar na borga com os Croatas (2º lugar) e os Gregos;
apanhar uma alergia com o nome ultra-chique de "pitiríase rosa" (rosa, essa cor tão na palette da Primavera-Verão 2005) e com isso ganhar acesso ao "Twilight Zone" que é o espaço de Urgências dos nossos amados hospitais e uufruir do sempre renovado choque que é puxar da senhazinha, porque por muito mau que o imaginemos, NUNCA conseguimos acertar na previsão numérica correcta que separa o deprimente algarismo desse pedacito ranhoso de folha, da nossa vez;
preparo-me para me fazer o óbvio no rico dia de amanhã: drogar-me e deixar que alguém que se licenciou em esquartejamento de pernas chafurde nas veias de um dos meus tão popularmente longos apêndices motores e tente a sua sorte.
Sim, meninos, porque esta torre ambulante de humor corrosivo, este colosso de mulher que é a vossa rabugenta diva grega aterrou neste mundo com uma chatice de velhos muito pouco própria de divas chamada má circulação. Sim, meus caros, vão-me sacar uma variz. Uma sacana duma variz, mesmo. Não há direito.
Aguardam-me 10 dias de repouso total - uhuhuh, sim, sim, claro, claro - em casa, pelo se aceitam mensagens de amor (mas isso comedido, rapaziada, que já fui fisgada por um emigrante calado-mas-não-tanto-assim e não tou para chatices, ai a coisa, conformem-se, já disse) e manifestações de solidariedade (vale tudo, menos auto-mutilação), no que aproveito para largar as seguintes singelas sugestões:
Mensagens de texto via telemóvel;
Telefonemas; A oferta de ecran de plasma gigante com DVD; Aparecerem no ghetto chique em que vou hibernar com um dos ou todos os seguintes bens alimentares: brigadeiros de chocolate, gelado de morango caseiro, tarte de limão merengada, lasagna vegetariana, robalo grelhado com batatinhas assadas e molho de manteiga e alho, caipirinha.Com estas pequenas insinuações me despeço, certa de que a imagem desoladora da Grega numa bata tinhosa de hospital (aquelas tretas nunca atam como deve ser atrás e quando não expomos, em vitupério absoluto, o rabo aos corredores da Cirurgia, no mínino sofremos com a corrente de ar nessa zona tão sensível e querida. Rabos frios não apetece a ninguém, caramba.) vos impelirá aos corredores do supermercado mais próximo.
Até lá, farewell. Beam me up, Scottie.
Monday, July 11, 2005
Aaaaaaaaaaahhhhhhhh, sexta-feira, clímax cronológico da semana proletária,
sexta-feira, musa de inumeráveis canções e filmes,
sexta-feira, essa palavra que se espreguiça, lascivamente, entre a língua o céu da boca
sexta-feira, o único nome próprio digno de acompanhar Robinson Crusoé no isolamento de uma ilha localizada algures no rabo do discípulo traidor (o chamado "cu de Judas", para os que não lêem a Bíblia e nem sabem quem foi o discípulo traidor - tss tss),
sexta-feira, esse vislumbre comovente da linha de meta,
sexta-feira, sexta-feira,sexta-feira. Oooooooooooooooooh, sexta-feira.
Abranda o ritmo cardíaco, o sangue flui mais regular nas veias, o cérebro (esta caganita do tamanho de um tubérculo que para aqui lateja de vez em quando) refreia os sinais eléctricos que o fazem funcionar e encostamo-nos à ideia de um fim-de-semana que provavelmente será passado num ápice e com a emoção de uma aula de Introdução à Contabilidade, mas que por ora - agora - é uma doce e inebriante promessa de liberdade. Oh, sim. Sexta-feira.
Friday, June 24, 2005
Confissão
Quando comecei este rico ninho vocabular, apregoei - e justificadamente, diria - que seria recipiente das minhas constantes e involuntárias desventuras ou pelo menos o eco de uma visão algo acidazinha dos (múltiplos) pequenos contratempos da vidinha quotidiana. Ocasionalmente, aproveitaria para lançar alguma verdade constrangedora de sabedoria (o que ainda não aconteceu) ou abençoar-vos com este abismo de cultura geral e opiniões válidas sobre o mundo actual (também não, mas não percam esperança, que mais dia, menos dia, o Marcelo Rebelo de Sousa cansa-se e incontornavelmente que sou a 2ª opção mais óbvia).Dito isto, é com um forte rubor nas faces e engolindo em seco que confesso ter passado 10 dias estupendos de férias em Itália, a enfardar-me de massa e a evitar estoicamente crises aerofágicas, a deambular por Génova, a amassar as costas contra as praias de pedras e rochas do Mediterrâneo, a practicar o F.D.C.Q.T.P.C.* em certas ruas de Milão, enfim... Eu nem tenho coragem de fazer o relato completo, até porque a ultima coisa que pretendo é que a estampa de anúncio Martini que me acompanhou no processo seja assediado por papparazzi**. Foi o deboche total.
5 dias volvidos deste indesculpável relato de felicidade, não tenho uma única amargurazinha para relatar. E, para cúmulo, já é 6ª feira. Descanso outra vez. Sei que vos desaponto, mas aguardo alguma complacência. Isto é só esperar um bocadinho que o efeito das férias passa. Hoje mesmo, por exemplo, posso tropeçar do alto das minhas socas e sabe-se lá que historieta isso não fabricará!!! (Se não tropeçar, lanço-me das socas, prometo.)
Assim me despeço. A Musa Grega, diva dos blogs, anda bem-disposta. Perdoem-me... e até breve.
*F.D.C.Q.T.P.C. - Faz De Conta Que Tenho Poder de Compra, modalidade que envolve geralmente o embaciar pouco discreto das vitrine da Valentino, Yves Saint-Laurent, Christian Dior, Armani, etc. e que em prácticas mais extremas pode, inclusivamente, levar ao esparramar completo das bochechas, nariz e mesmo do resto do corpo completo contra as ditas montras. Não é bonito de se ver.
**Agora também estás tramado, querido.
Tuesday, June 07, 2005
Dolce Fare Niente
Depois de uma primeira noite que auspiciava um remate diferente - chegadas às 3 da matina, via-me entrincheirada num sofá-cama com mana e irmã (sim, éramos mesmo 3), com um gato de 2 meses que se recreou noite fora
(o que sobrava da noite)
a pulular nos nossos estômagos, a morder os deditos dos pés, a arranhar as coxitas, a correr para lá e para cá e para lá e para cá e para lá e para cá e para lá e para cá e para lá e para cá e (já estão a perceber), maneiras que quando não se acordava por se ser a vítima, acordava-se com o berro da vítima do lado, que acabara de acordar de sobressalto com o bichano em cheio na boca e cuspia a bola de pêlo em pânico. A abençoada salita era um coro gregoriano de "ai-ui-ah-ah-ah", logo seguido de um brutal "QUE É QUE FOI, QUE É QUE FOI?!" do ente querido que na altura nos espetava o cotovelo nas costas, mas que até se preocupava (era à vez).
Não me interpretem mal, que o gatinho e eu ficámos unha com carne
mas quando no dia seguinte o mini-felino teve o desplante de descansar de todo o exercício físico practicado de véspera sobre os nossos corpos fatigados, ocorreu-me que aquilo não era vida, pelo que a situação evidentemente melhorou na 2ª noite, quando num daqueles meus rasgos de génio que tanto faço questão de publicitar larguei
a caixa de areia do gato, a cama do gato e o gato
no corredor e fiz ouviditos de mercador aos miados do bichano. Dormi como um anjinho (isto se já tiverem provado que os anjos ocasionalmente dormem de boca aberta e babam a almofada).
Depois disso,
e é com lagrimetas penduradas no rímmel, cavando um inestético ribeiro negro bochechita morena abaixo que o digo,
aqui declaro comovida que o fim-de-semana foi tudo o que sonhei. Com indelével perícia, manuseei aquele factor 40 e aquele factor 25 e aquele factor 10 ao longo de horas transpiradas à torreira do sol e abri caminho ao estatuto de bomba latina (mais coisa, menos coisa, estou lá), desfilando de fronte erguida entre inúmeros bifes e gambas estrangeiritas, qual Rainha do Sul.
O facto é que me esquecera do quão bom é
não ter que planear com rigores militares a praia que pretendemos atacar, o percurso que devemos tomar, as horas a que devemos sair, as horas a que devemos voltar;
não ter que amassar o ouvido junto à coluna do rádio para ouvir o relatório do trânsito;
não ter que esbracejar e desesperar em horas de trânsito, mesmo que tenhamos cumprido à risca as 2 últimas premissas;
e também esquecera do quão bom é
estarmos todas, juntas, as 3 manas e a mãe. Podemos ser malucas, podemos ser doidas, podemos agir de modo insano e complicar tudo (pronto eu corrijo. Ou melhor, corrijam os meninos: é só passar a frase a singular), mas XIÇA, que somos felizes juntas (esta última parte mantém-se no plural)!!!!! Que mulheres estupendas, caramba. :-)
Wednesday, June 01, 2005
Isto só pode correr bem
Só para avisar que este corpinho bolorento, bafiento, pálido e queixoso prepara-se para arrastar-se no final da jornada de trabalho do dia de hoje para aquilo que só poderá ser um fim-de-semana perfeito, de tosta humana escarranchada na areia do meu Algarve.
Com alguma sorte, arranjo um pedaço que não esteja contaminado por hordas de famílias com representantes de 4 gerações migrantes do Norte, daquelas que levam a tenda, a arca frigorífica, a mesa, as cadeirinhas, as criancinhas, o cãozinho, o microondas, os 5 guarda-sóis e o rádio empatado na estação de música pimba e que,
quando não estacionam logo à entrada da praia - formando um enclave de abelhinhas ocupadas e barulhentas, - e por algum assombro de clareza de espírito avançam para além desse perímetro fantástico,
conseguem encontrar a nossa toalha e por algum novo assombro - desta feita de espírito turvo e cego - parqueiam a sua colónia à distância de fazer cócegas nos mindinhos dos nossos pés, mesmo que estejamos ladeados de 5 kms de extensão de areia por ocupar.
Enfim, tenciono deslocar estes ossos débeis às praias menos conheciditas (senão não escapo, poça) e colocar-me de molho na águinha não-glaciar do meu Algarve. Sim, porque lá porque os amantes da Costa da Caparica achem piada a treinos de esquimó, confesso que não tenho a mínima vocação para o frio. (Perdoem-me se acho que sofrer dor física para me refrescar não cabe no meu conceito de uma ida à praia feliz).
E se me dou ao trabalho de elaborar este anúncio com pompa e circunstância, é porque gostaria de avisar a todos os espíritos vingativos que preparam bonequinhos de voodoo e que já contactaram o Professor Bambo, vidente, e índios da Amazónia e a Maya no sentido de tentar conspirar chuvinhas e chuviscos lá para os meus lados que não vou nessa conversa e que recuso liminarmente toda a sorte de nebulosidade e pluviosidade e outro tipo de cabalas atmosféricas.
É que se não volto desta empreitada um guindaste de cor e pele salgada... não me procurem por uns tempos. Aqui vou eu!
Tuesday, May 17, 2005
Belas férias.
Calem o choro, enxaguem os olhos, larguem a polícia. A grega voltou. Sim, voltou.
Onde fostes, pequena?, ejaculais vós em pertinente demanda.
Filhotes, tal como ameacei (por isso não digam que não avisei) tive um "crash&burn" oficial e portanto, a dois segundos de me transformar irreversivelmente num vegetal, decidi meter férias.
Onde gastaste tu 6 dias desse precioso arsenal de dias de licença, criatura?, retorquis vós, com saudável curiosidade.
Meninos, depois de um estudo minucioso que contemplou hipóteses tão tentadoras como a Grécia, Ilhas Fidji, Açores, Quénia, Cabo Verde e outros que tais, optei por uma alternativa pouco óbvia,
se bem que de cariz peculiarmente compulsivo, como tão bem argumentou o meu banco,
mas de interesse antropológico inegável . Fiquei em casa. Não arregalem os olhos em desdém, que a gente no fundo passa muito pouco tempo em casa.
A ver: como insignificante insecto trabalhador que sou, raramente ou nunca estou no bairrinho entre as 08h-18h, o que significa que há 10 horas por dia, de 2f a 6f, que desconheço do movimento da minha rua. Mais a mais, como execrável mercenária que também sou, é com ainda mais lamentável frequência que me ausento de casa em horários pós-laborais, fatigando este corpinho com extras.
O que sucede, afinal, durante essas horas? Que lixo optam os meus vizinhos por deitar ao chão durante esse período? Quantas vezes escarram, em média os transeuntes (divididos por sexo e faixa etária)? Qual a tonalidade mais frequente de buzinas (aguda, média, grave) que apitam rua abaixo, rua acima?
Estas e muitas outras questões de igual calibre importava responder. A não ser que fizesse bom tempo, é claro.
Nesse caso ia à praia. Sim, desistia voluntariamente deste tom pérola e vendia-me ao escuro. Estirava-me com o mínimo de (ou nenhum) tecido em cima, desafiando a minha paupérrima melanina com o máximo de exposição solar
(protegida, caramba, protegida, xiça, mãe, já disse que tenho protector, apre que já expliquei que é um factor alto, altíssimo, IRRA, não me obrigue a dizê-lo - SIIIMM, é o para crianças - aquele que é VERDE no início, que humilhação, eu a querer armar-me em beach babe e em vez disso a desfilar qual elfo venusiano de orelhas redondinhas e mamas verdes xxs.)
e executando a seguinte coreografia mínima de movimentos:
VIRAR
IR
- à águaVIR
- da águaComo é evidente, dessa vasta gama de possibilidades climáticas que me poderia ter calhado em meados de Maio,
saiu-me na rifa uma sucessão de nuvens, enevoados, frio... e chuva.
Maio, maduro Maio, quem te pintou?!
Portanto lamento, mas caí num estado de neura que me toldou o juízo académico e colocou em causa quaisquer resultados da investigação a que me tinha tão conscienciosamente proposto, tal como descrevi no início deste texto.
A todos aqueles que morriam por saber afinal que lixo optam os meus vizinhos por deitar ao chão entre as 08h e as 18h e quantas vezes escarram, em média os transeuntes (divididos por sexo e faixa etária) e qual a tonalidade mais frequente de buzinas (aguda, média, grave); a todos aqueles cujo trabalho de doutoramento foi posto em causa por contarem com estes resultados (que se adaptam perfeitamente a qualquer campo das ciências humanas e científicas) para enriquecerem a temática abordada; a todos aqueles cuja curiosidade não será saciada e cujo vazio deixado por esta lacuna oprime o peito e contrai o diafragma em aparatosa dor...
As minhas mais sinceras desculpas.
Tuesday, April 26, 2005
Cá se vai andando
No "post" anterior
[pah, não quero ser possidónia nem nada, mas a casual utilização destas palavritas estrangeiras traz um elemento de sofisticação ao texto, não traz? É logo outra coisa. Outro jogo. Outra liga. Outro nível. "bláblábláblábláPOSTblábláblá. Não soa bem?! Não arquearam as peitaças em suspiro de admiração "esta-tipa-percebe-mesmo-disto-ena-post-soa-mêmo-bem"?! Não disfarcei, com essa singela palavrinha, o facto de ter levado 3 semanas a descobrir como se formatava a porcaria de um parágrafo?! Porque vejam lá que na minha terrinha a gente quando quer um parágrafo carrega na tecla do "enter" e toca a andar, mas aqui, só para ser diferente, só porque é mais bonito, afinal é preciso um códigozito, uma coisinha tão pouco óbvia quanto o Santana Lopes ter parado a Primeiro-Ministro sem alguém me ter consultado primeiro, umas coisitas com parêntesis e <> antes de cada frase. Pronto. Estava apenas a adiar esta descoberta para depois do meu doutoramento em física quântica. Escuso agora de fazer o doutoramento, com o adiantamento desta feliz informação.
terminava a salva de palavras com o anúncio da aproximação de um "programa de gajas".
Certa que essa divulgação deixou pairar na vossa fértil imaginação a projecção de 3 dias dignos de um videoclipe dos Aerosmith, gostaria de desmentir a putativa fantasia e esclarecer os factos.
Não, não fugimos de um colégio interno vestidas com meinhas altas e pouco mais. Não, não furtámos óculos de sol na bomba de gasolina e não, não gratificámos o funcionário da bomba com uma sucessão de fotografias photomaton com tecido mamário à mostra. Não, não cantámos karaoke com fatiotas de "las Vegas showgirl"e insinuações lésbicas pelo meio e não, não atraímos um agricultor apetitoso de corpo perfeito, nú, para um lago artificial (esta última, com muita pena minha).
A coisa foi mais uma mistura de cura de sono com um pico abrupto de actividade adolescentóide Saturday Night. A ver:
Sábado - dia
Depois de nos mimarmos com um pequeno-almoço principesco tomado a horas de almoço, fomos puxadas pela gravidade - ajudada em muito por um peso brutal no estômago - para o sofá. Aí jazeram os nossos corpos, de pijama, a produzir bolor e a chorar 5 programas seguidos da Oprah
pelo menos eu chorei, que por baixo desta capa fria e corrosiva sou muito sensível
entre outros tantos de transformação de visual, mudança de decoração da casa e um precioso documentário sobre baleias e a reprodução de corais.
Cerca de 5 horas depois, com a cabeça a latejar e a tensão arterial de um pardal, decidi abruptamente que estava na hora de activar a circulação - à falta de Prozac, pareceu-me ser a medida mais segura contra a neura bestial que se avizinhava.
O tempo, tipicamente, estava algo entre um encorajamento da mãe-natureza ao internamento voluntário em sanatório e o cenário cinzento de uma história de amor francesa, daquelas que quando acaba mal, acaba pessimamente.
Troco o pijama pela ganga e o kispo, marcho a passadas largas para a liberdade, dobro a esquina e sinto a chuva miúda a impregnar o cabelo. Chuva por chuvinha, é só água e quando regressasse tinha que tomar um duchezito, portanto decido prosseguir. Foi um daqueles momentos cruciais em que entre virar à direita ou à esquerda, decidimos pela direita e cai-nos um piano em cima da cabeça. No caso, não um piano, mas uma bátega torrencial que me colou o cabelo ao cerebelo.
Largo a correr, dou a volta ao quarteirão e entro directa para o duche. Felizmente, dado o mote, as amigas seguiram o exemplo e a atmosfera densa dissipou do abafado-pijama para uma mistura de brise-pinho e nívea.
Daí seguimos para um estimulante passeio com a cadela, que também teve os seus momentos altos. Entre outros, inventei 122 versões possíveis para os 4 primeiros versos da versão do "Jura" do Rui Veloso, trocando apenas as palavras "lua" e "acontecem". Terrivelmente didáctico. Fomos igualmente agraciadas pelo salvamento comovente da bola da amiguita peluda
por bola, entenda-se uma esfera com o seu próprio peso em saliva, baba, relva e lama, que ao cair no rio Tejo, suspeita-se tenha adquirido propriedades radioactivas
por parte de um herói local - um pescador de fim-de-semana.
Saturday Night
Agarramos em duas amigas, resguardamos a nossa identidade com os nossos nomes-código para o que der e vier e seguimos para Almada, a "road-trip" dos pobres. Chegadas ao destino, a Amélia, a Manana, a Urraca, a Núria e eu (a Kinder, Kindi para os amigos, muito obrigada. Um chocolate-uma surpresa-um brinquedo) prontamente gritamos o coro da Canção das Velhas com o SGodinho (a única que sei mais ou menos de cor), engrenamos na música do Zeca Baleiro e juntamo-nos ao resto do pessoal quando chega à hora de exigir o "encore".
Ora, instigadas pela bela Urraca, em cujos instintos a experiência nos tem ensinado a confiar, decidimos pedir uma coisita que jamais alguém me dedicará e que culmina assim "Éu dária tûdu prá não ver você cáláda...". E quando digo decidimos pedir, pretendo informar que gritámos, possessas:
"ÉU... DÁRIA TÛDU PRÁ NÃO VER VOCÊ CÁLÁDA...!"
A pujança foi tal que o Zequinha lá se dignou a ouvir e pergunta, do palco: "Quáu?" E logo nós, cada vez mais animadas:
"ÉU... DÁRIA TÛDU PRÁ NÃO VER VOCÊ CÁLÁDA...!"
O rapazito agita-se de um lado para o outro e vem para o nosso lado, com ares de quem não tá a ouvir. Nós ajudamos:
"ÉU... DÁRIA TÛDU PRÁ NÃO VER VOCÊ CÁLÁDA...!"
As luzes estão em cima de nós, conseguimos parar Almada com o nosso entusiasmo, todos os olhos estão fixos neste ping-pong entre cantor e espectadoras. É aqui que a porca torce o rabo. Com ar de estranheza, o rapaz cospe pró microfone: "´Cês têm á cêrtêza qui éssa é minha?!".
O coração gela, eu coro porque é o que faço sempre,
seja ou não preciso ou adequado, que esta pele marmórea não dá tréguas à dona (maldita falta de melanina!)
a Urracazita parece vacilar, instala-se entre nós o rumor que se calhar a música é do Lenine, assim de repente não temos a certeza e é impossível disfarçar ou transportarmo-nos instantaneamente tipo Star Trek para a Conchichina, agora já toda a gente viu e ouviu, que barraca.
O moço lá retoma o espectáculo com outra coisa qualquer e nós, no final, optamos pela teimosia e vamos ter às boxes por trás do palco, atiramos palpites sobre qual será a do camarim e é a essa que batemos entusiasticamente, do lado de fora das grades e berramos, declaradamente adolescentes,
"ÉU... DÁRIA TÛDU PRÁ NÃO VER VOCÊ CÁLÁDA...!"
Lá de dentro, ouvimos resposta, portanto eu retomo, sem pudor, a bater na madeirita e a replicar
"ÉU... DÁRIA TÛDU PRÁ NÃO VER VOCÊ CÁLÁDA...!"
e quando viro a cara, a estranhar a desistência súbita das amigas, dou de caras com 4 polícias de choque a avançar simpaticamente na nossa direcção. Antecipando que uma mudança brusca de atitude evitaria explicações embaraçosas aos miúdos da igreja que tão diligentemente me esforço por encaminhar e edificar com exemplos de boa conduta e maturidade, desisto da empreitada e sentamo-nos todas, inconformadas, numa paragem de autocarro.
Para apaziguar as facções Lenine-Zeca Baleiro que se levantavam, decido prometer um jantarito grego lá em casa se a Urraca não nos tivesse enganado.
A pesquisa discográfica resultou no seguinte: a música é mesmo do Sr. Baleiro (indecente que se tivesse recusado a tocar um dos seus primeiros trabalhos) e eu, que - é universalmente conhecido - DETESTO COZINHAR, vou mesmo pôr o avental e laborar ao fogão para produzir iguarias que apenas o destino ditará se serão causa de gastroenterites ou não. Fogo.
Zeca, querido, quando leres estas linhas (e é evidente que o farás, porque a tua bagagem cultural estará sempre desfalcadérrima se não o fizeres), pensa bem no mal que provocaste e no quanto
"ÉU... DÁRIA TÛDU ...!"
Friday, April 22, 2005
Lamúria
Há já um ano e meio (cerca de 548 dias, mais coisa, menos coisa) que não tenho férias.
Neste ponto da narrativa, não só se admitem, como se encorajam as seguintes expressão de pena e solidariedade:Dito isto, perdoar-me-ão se nem sempre executo as tarefas diárias com o melhor humor possível. Pressinto mesmo, aliás, que me estou a tornar impossível de aturar.
(o chamado "feitiozinho", cuja falta de especificação - feitio bom? mau? - e diminutivo são aqui utililizados de modo depreciativo. Que culpa tenho se tenho um nariz greco-aristocrático, cujo comprimento faz com que se aproxime muito mais rapidamente a mostarda do dito apêndice que o resto dos comuns mortais?!)
Para essa mística intuição contribuiram certas subtilezas no ambiente do escritório, como sejam a insistente demanda da marcação das minhas férias por parte dos patrõezitos,
Chefe Touro Sentado e Chefe Raposa Calada -
uma demanda que neste momento atingiu a frequência diária, excepto durante uma sexta-feira mensal, coincidente com o pico do SPM
(Síndrome Pré-Menstrual, para o pessoal que não foi abençoado com ovários)
em que perguntam várias vezes num só dia. Em meses em que falhei mais que 2 tomas de
pílulahá 7 anos a tomar o comprimidito amarelo e não há mês que passe que não me olvide desse gesto socialmente aceite ao fim de tanta luta por parte de gerações inteiras de mulheres antes de mim - mau-grado o alarme do telemóvel gemer às 21h todos os dias e cerca de 6 pessoas do meu círculo familiar e social mais próximo assumirem ocasionalmenteo o lugar de lembretes humanos. Soubessem essas intrépidas activistas que eram cabecitas aéreas como a minha que se iam agarrar a essas pequenas bombas hormonais e queria ver se tinham gasto o seu latim na causa. O tanas!
o grau de insistência aumenta vários dias antes da sexta-feira negra. Como já expliquei por diversas vezes aos chefinhos, não tiro férias para ficar atolada cá na cidade, portanto sem dinheiro
sem guito, carcanhol, cacau, o vil metal,
daqui não saio. Porque entre trabalhar e fermentar uma neura no bairro cravejado de velhotas simpáticas onde vivo, a escolha é óbvia.
Foi assim com algum agrado que reparei na aproximação de um fim-de-semana prolongado, um fenómeno natural que agracia o comum proletário de quando em quando e que, no calendário português, consegue ser induzido de modo artificial por uma manha frequentemente utilizada a que chamamos "ponte" e a que o o próprio governo não tem pudor a aderir, numa reciclagem nostálgica romana do querido "pão e circo".
Com planos de cravar boleia, fiz assim planos de zarpar para o Reino dos Algarves,
minha querida terrinha, pátria amada,
acostar no sofá de uma das manas , a nossa "problem-child", amancebada com um Croupier com vocação de santo (é tudo mulheres difíceis, lá em casa),
cujos pais - quando não a martirizam com comparações danosas com o supra-sumo das namoradas de todo o mundo que era a ex-namorada do filhote e a seguir a essa não há mesmo quem lhe ocupe o lugar no pedestal apesar de o filhote já não andar com a ex (daí o prefixo "ex") mas isso não quer dizer nada de nada- são pescadores e portanto tinha garantido um "stock" invejável de peixinho fresco para desintoxicar e nutrir este débil amontoado de carne, gelatina, ossos e olheiras a que o espelho insiste a atribuir como meu,
matar saudades do sangue do meu sangue, discutir 3 vezes ao dia com o sangue do meu sangue, pôr-me a par das últimas novidades da vila, passear quilómetros absurdos de beleza pela serra e pela praia, comer quilos de torradas de pão alentejano, sair à noite e rever os amigalhaços do liceu, ler saltar, brincar.
Como deliciosa adição a este texto idílico de folheto estava a presença certa da querida amiga Helena. Abandonada, qual depósito de lixo orgânico, pelo marido, que segue em viagem para filmar cenas épicas que preencherão os nossos ecrãs televisivos com reptos de consumo, a miúda decidia espairecer no sul. Levava carro (o tal suporte logístico de borla).
Tudo pronto e os castelitos construídos no ar. Desmoronam com pompa e circunstância quando recebo a improvável notícia que a Helena, afinal, tem que ficar em Lisboa, capital do Império, para tomar conta da cadela dos sogros. Fico cheia de pena, dizemos "fica para a próxima" e conto então com a minha outra boleia. Todavia o moço que me acomodaria no seu lugar de pendura vai para o JAPÃO nesse preciso fim-de-semana. Não para o Coiro da Burra, não para Paredes da Beira, para o Japão. Pronto, se é assim que vai ter que ser...!
Em conluio com a Helena lá projectámos fim-de-semana "de gajas". Levo a mochila e vou a casa dela - sempre mudo de bairro. Daqui para a frente, é o que for. O que nos espera, não se sabe.
Eu só sei que há já um ano e meio (cerca de 548 dias, mais coisa, menos coisa) que não tenho férias. Neste ponto da narrativa, não só se admitem, como se encorajam as seguintes expressão de pena e solidariedade...













